Uma das maiores bases de dados do planeta dedicada às emissões de gases de efeito estufa pode estar contabilizando bem menos dióxido de carbono do que deveria nas cidades - em média, 70% a menos quando o assunto são os veículos. Se isso se confirmar, passamos tempo demais guiando políticas públicas com instrumentos descalibrados.
Medir emissões de CO₂ com precisão é uma condição sine qua non para qualquer estratégia climática que se leve a sério: é o que permite trocar uma ecologia de intenção (promessas vagas) por uma ecologia de resultado (gestão responsável dos recursos). Não dá para reduzir de forma consistente aquilo que não se quantifica direito - e, ao que tudo indica, esse erro vem sendo cometido com uma regularidade preocupante.
De acordo com um estudo publicado em 5 de maio de 2026 na revista Environmental Research Letters, três pesquisadores da Northern Arizona University chamam atenção para vieses na base do Climate TRACE (Rastreamento de Emissões Atmosféricas de Carbono em Tempo Real). Trata-se de um dos consórcios mais citados no monitoramento global de emissões, cofundado pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore. Ao confrontar o Climate TRACE com a própria base Vulcan, desenvolvida pelo laboratório School of Informatics, Computing, and Cyber Systems, Kevin Gurney e sua equipe examinaram as emissões de 260 cidades americanas. O resultado é contundente: o Climate TRACE deixaria de capturar quase três quartos das emissões reais geradas por carros e caminhões em circulação nas áreas urbanas do país.
O que a comparação com a base Vulcan revelou em 260 cidades
Em alguns casos, a discrepância é ainda mais drástica. Em cidades como Indianapolis e Nashville, a diferença ultrapassa 90%. “Os dados do Climate TRACE subestimam de forma significativa mais da metade das emissões de CO₂ de origem fóssil nas cidades americanas”, resume Gurney. A pergunta, então, é direta: como uma lacuna tão grande pode aparecer em uma ferramenta que se apresenta como uma das mais avançadas tecnologicamente e com melhor financiamento entre as disponíveis para monitoramento?
IA flagrada: o monitoramento das emissões urbanas precisa ser refeito do zero
A explicação, segundo os autores, está justamente no mecanismo por trás do sistema. Para consolidar e processar estimativas de emissões em escala mundial, o Climate TRACE se apoia principalmente em inteligência artificial. Algoritmos treinados com dados de satélite, informações energéticas e indicadores de mobilidade são usados para inferir, quase em tempo real, os lançamentos de CO₂ de dezenas de milhares de fontes diferentes.
O ponto crítico é que os resultados não teriam sido submetidos, de forma suficiente, a uma validação científica rigorosa. Para Gurney e seus colegas, esse é o problema central de um projeto que, desde 2021, busca ser a “polícia global do carbono”. “Nunca conseguiremos estimar emissões com precisão perfeita, mas precisamos garantir que os dados comunicados a formuladores de políticas sejam não enviesados e sigam as melhores práticas científicas disponíveis”, defende ele. E alerta: “Sem isso, induzimos os tomadores de decisão ao erro e corremos o risco de perder a confiança do público na nossa capacidade de combater a mudança climática”.
Na prática, o Climate TRACE foi promovido como o olho onipresente da descarbonização - um vigia algorítmico capaz de rastrear, do espaço, tudo o que sai dos escapamentos, sob o aval de Al Gore. Só que esse “olhar” pode ter falhado: decisores climáticos teriam trabalhado com números amplamente subestimados.
Por que a validação científica não é detalhe nesse tipo de dado
Quando a base que orienta políticas, metas e fiscalização não passa por checagens independentes, o risco não é apenas técnico: é institucional. Um erro sistemático, mesmo que não intencional, pode deslocar prioridades, distorcer comparações entre cidades e levar investimentos para onde o diagnóstico parece mais grave - e não necessariamente para onde as emissões são maiores de fato.
O mea culpa do Climate TRACE
Após a divulgação do estudo, o consórcio respondeu afirmando que a análise de Gurney usou uma versão do banco de dados afetada por um bug temporário em 2025, já corrigido. Com a atualização, sustenta que a diferença em relação ao Vulcan cairia para 6% em média nas grandes cidades e para cerca de 1,4% no nível dos condados. Para o Climate TRACE, esse grau de divergência seria esperado: duas bases construídas com fontes e métodos distintos dificilmente chegam aos mesmos valores.
A resposta, porém, não encerra a controvérsia. Primeiro, porque o trabalho de Gurney passou por revisão e validação de pesquisadores independentes antes de ser publicado - exatamente o tipo de escrutínio científico que os críticos dizem não ter sido aplicado, com o mesmo rigor, às estimativas do Climate TRACE. Segundo, porque um bug pode até explicar anomalias pontuais, mas não necessariamente justificaria sozinho um erro tão uniforme e direcionado em um mesmo território.
Dados do Climate TRACE nas COP e como isso afeta inventários nacionais
Independentemente de como esse embate termine, ele reforça um ponto incômodo: o uso de IA sem controles adequados, mesmo guiado pelas melhores intenções, pode agravar o problema que promete resolver. As estimativas do Climate TRACE são usadas, por exemplo, nas COP (Conferência das Partes) para preencher lacunas dos inventários nacionais - encontros de grande peso na diplomacia climática, onde são firmados compromissos que moldam, em parte, o nosso futuro climático. Se um laboratório universitário consegue contestar, em poucos meses de trabalho, uma base tão influente, vale questionar a solidez do alicerce de futuros acordos internacionais.
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