Conflitos armados ativos viraram parte do dia a dia de milhões de pessoas no mundo. Além do custo humano imediato, a guerra também altera o ambiente ao redor de formas que podem demorar anos para aparecer.
Um grupo de cientistas em Israel decidiu mapear um pedaço desse impacto menos visível. A pergunta era direta: substâncias químicas associadas a munições modernas conseguem chegar às culturas agrícolas plantadas perto de uma zona de guerra em atividade?
A resposta veio de onde poucos esperariam. O sinal mais forte não surgiu no solo, e sim nas folhas de plantas comuns de batata.
Químicos eternos perto de zonas de guerra
As substâncias analisadas pertencem ao grupo das substâncias per- e polifluoroalquil, conhecidas pela sigla PFAS.
Elas são frequentemente chamadas de “químicos eternos”, porque resistem à degradação por décadas - e até por séculos.
Os PFAS aparecem em frigideiras antiaderentes, embalagens de alimentos, tecidos repelentes à água e espumas de combate a incêndio. Com o tempo, também se espalharam pelo ar, pela água e pelo solo - e acabaram no organismo de praticamente todo mundo.
Para a maior parte das pessoas, a dúvida já não é se há PFAS no corpo, mas em que quantidade.
Esses compostos já foram identificados no sangue da imensa maioria da população mundial, e a preocupação com possíveis efeitos de longo prazo continua a aumentar.
O que o solo indicou
Uma equipe liderada por Nitzan Shy e pelo professor Benny Chefetz, da Hebrew University of Jerusalem, coletou amostras de solo, folhas de batata e tubérculos de batata em 34 campos no Gaza Envelope, uma zona de guerra ativa no sul de Israel.
Esses resultados foram comparados com áreas de referência próximas a Ra’anana, cerca de 80 km (aprox. 50 milhas) ao norte.
Nos solos agrícolas, apareceu um padrão já conhecido. Eles continham PFAS mais antigos, associados a anos de irrigação com água residual tratada e ao uso de biossólidos compostados.
Esses “químicos de legado” se acumulam lentamente ao longo de muitas safras, formando um pano de fundo denso que pode mascarar qualquer sinal mais recente e mais fraco que chegue pelo ar.
O que as folhas mostraram
Nas folhas de batata, a assinatura química foi completamente diferente. Elas apresentaram níveis elevados de PFAS de cadeia curta, sobretudo um composto chamado ácido perfluorobutanoico, ou PFBA.
Por serem mais leves, esses compostos se deslocam com facilidade pela atmosfera. Em algumas folhas, as concentrações de PFBA chegaram a centenas de vezes o valor medido no solo logo abaixo.
Os químicos vieram pelo ar
Essa diferença aponta para um aspecto crucial do caminho de entrada. Em geral, as plantas absorvem contaminantes pelas raízes; porém, aqui o solo tinha PFBA em quantidade baixa demais para justificar os valores detectados nas folhas.
A razão folha/solo teve média de 266 para PFBA e ultrapassou 1.200 no campo mais extremo. Números assim indicam que as folhas captaram esses compostos diretamente do ar, e não do chão.
A guerra pode liberar esses químicos
De onde, então, viriam os PFAS atmosféricos? Os autores destacam duas hipóteses ligadas a atividades militares.
Uma fonte bem documentada são as espumas de combate a incêndio, conhecidas como aqueous film-forming foams (AFFF).
Outra possibilidade é a liberação de compostos relacionados quando certos polímeros fluorados usados como aglutinantes em munições - como Viton e Teflon - queimam em temperaturas elevadas.
Ainda assim, a equipe evitou apontar um responsável específico. Sem amostragem do ar ou marcadores exclusivos de munição, a ligação com atividades militares é tratada como uma hipótese forte, mas não como prova definitiva.
As batatas permaneceram seguras
Os dados trazem um ponto tranquilizador. Os PFAS que se acumularam nas folhas quase não chegaram aos tubérculos comestíveis, que crescem abaixo do solo.
A detecção nos tubérculos foi baixa, e as concentrações ficaram muito abaixo das observadas na parte aérea.
Isso está em linha com estudos anteriores: folhas e raízes tendem a concentrar a maior parte dos PFAS, enquanto órgãos de reserva, como a batata, absorvem muito pouco.
Sem padrão com a distância
Os pesquisadores esperavam ver a contaminação diminuir conforme aumentasse a distância até a fronteira. Se munições fossem a principal fonte local, a concentração deveria cair nos pontos mais afastados.
Esse comportamento previsto não apareceu. Nem nos solos nem nas folhas houve uma queda nítida ao longo do gradiente, o que sugere que a zona de guerra não imprimiu uma marca grande e claramente distinta no solo regional.
As medições no solo também se mantiveram surpreendentemente modestas. Os níveis de PFOS próximos à fronteira ficaram ordens de grandeza abaixo da mediana de 8.700 ng/g frequentemente registrada em áreas de treinamento militar e de detonação ativas em outros lugares.
Na comparação com fazendas de outras regiões do mundo, os valores também não chamaram atenção.
Os compostos detectados nesses solos, folhas e tubérculos foram, em geral, semelhantes - ou inferiores - aos níveis relatados em estudos pela Europa, Ásia e Estados Unidos.
Plantas revelam poluição recente
O principal ganho do estudo está no que as folhas dizem sobre o “quando” da contaminação. O solo funciona como uma memória longa, guardando décadas de poluição acumulada em uma mesma camada.
As plantas, por outro lado, atuam mais como um retrato recente do ambiente. Elas registram o que chegou pelo ar em uma única estação de crescimento, antes que o sinal se dilua e se misture ao registro mais profundo do solo.
“Nossos achados sugerem que a vegetação pode fornecer informações únicas sobre processos ambientais em andamento e pode servir como um indicador eficaz de contaminação aérea recente”, afirmaram os pesquisadores.
“Entender essas vias é essencial para melhorar como monitoramos e gerenciamos poluentes ambientais em paisagens agrícolas.”
Um jeito melhor de monitorar
O trabalho sustenta um argumento prático sobre vigilância ambiental. Em locais marcados por contaminação antiga, análises apenas do solo podem não captar entradas novas vindas da atmosfera.
A amostragem de vegetação e de ar pode cobrir esse ponto cego. Ao “ler” as folhas, pesquisadores conseguem identificar episódios recentes de contaminação que, com o tempo, o solo absorve e acaba escondendo.
O estudo também chama atenção para zonas de guerra como uma possível fonte emergente de PFAS e poluentes correlatos que merece acompanhamento.
À medida que os conflitos continuam remodelando paisagens, as plantas que crescem nesses territórios podem oferecer um dos alertas mais precoces disponíveis.
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