A poluição do ar costuma ser contada como uma história de cidades - do trânsito e da indústria concentrados nelas. É lá que ficam a maior parte das estações de monitoramento e, quase sempre, é lá que recai a culpa. Em grande parte da África Ocidental, porém, outra origem se acende a cada estação seca: agricultores e famílias colocam fogo em inúmeros focos pequenos espalhados pelo território.
Essas queimadas deixam um rastro químico na atmosfera. E, agora, cientistas conseguiram seguir essa assinatura ao longo de seis países, identificando um padrão mais nítido do que se imaginava.
Poluição das queimadas no céu
O estudo foi conduzido no Departamento de Meteorologia e Ciência do Clima da Kwame Nkrumah University of Science and Technology (KNUST), em Kumasi, Gana.
O cientista atmosférico Prince Junior Asilevi liderou a equipa, que procurou estimar quanto da poluição regional pode ser atribuída às queimadas sazonais.
Para isso, o grupo recorreu a satélites. Dois instrumentos em órbita forneceram seis anos de medições, de 2019 a 2024: um registou o calor emitido por focos ativos de fogo; o outro mediu dióxido de nitrogênio, um gás que irrita os pulmões e contribui para a formação de neblina de poluentes.
O indicador de fogo aponta quanta energia térmica cada foco liberta. Ao cruzar essa informação com os dados do gás, a equipa pôde ver ambos a subir e a descer em conjunto ao longo de seis países, da Costa do Marfim até a Nigéria, no sentido leste.
Quando as queimadas atingem o pico
Na região, o fogo não se distribui de forma uniforme ao longo do ano. Ele concentra-se na estação seca, de dezembro a fevereiro, quando as chuvas cessam, o solo perde humidade e o vento empoeirado do Harmattan sopra a partir do Saara.
Mapas de satélite indicaram que, nesses meses, há queima intensa na savana do norte.
Em junho, com o retorno das chuvas e a paisagem mais verde e húmida, as queimadas quase desaparecem. Depois, mais tarde no ano, surge uma segunda vaga, à medida que o início da estação seca avança para o norte.
Esse compasso anual já era conhecido por especialistas em fogo. Em alguns locais, os focos também estão a aumentar: um estudo recente apontou que as queimadas nas florestas tropicais húmidas do continente praticamente duplicaram ao longo de 18 anos.
Queimadas e poluição evoluem juntas
É aqui que o trabalho traz uma evidência nova. Ao alinhar os países, um a um, os dados de fogo e as medições do gás desenham praticamente a mesma curva. Quando as queimadas cresciam, a poluição também aumentava.
Para medir o quão próximos eram esses movimentos, a equipa aplicou uma pontuação de zero a um, em que um indica coincidência perfeita.
A relação apareceu em todos os países analisados: de 0.68 no Benim até 0.97 no Togo, com o Gana a marcar 0.95. Um sinal claro, repetido seis vezes.
Antes deste estudo, ninguém tinha quantificado com tanta nitidez, na região, o vínculo entre queimadas e poluição do ar.
Queimar sazonalmente não apenas piora o ar por um dia; nesses países, o fenómeno acompanha um aumento estável e recorrente de um gás prejudicial aos pulmões.
Onde o gás persiste
Nem todos os países encaixaram do mesmo modo. A Nigéria, a nação mais populosa do conjunto, mantém níveis elevados de dióxido de nitrogênio ao longo de todo o ano, porque o trânsito e a indústria em cidades como Lagos emitem o gás independentemente da estação. Ali, o sinal das queimadas fica encoberto por essa névoa urbana constante.
Burkina Faso apresentou o desvio oposto: muita queima, mas um nível de gás que quase não variou, sugerindo outras fontes ou a entrada de ar já poluído vindo de fora. O grau de sincronização entre fogo e poluição depende do peso das cidades de cada país e de como o uso da terra é conduzido.
As cidades também atrapalham a leitura do quadro por outra via. Em centros costeiros como Acra e Lagos, o pico na estação seca é reforçado por algo que ocorre acima, na própria dinâmica do ar.
A poluição das queimadas fica presa
Para explorar isso, a equipa analisou o movimento vertical do ar em cada estação. O foco foi a lenta descida ou subida das massas de ar a cerca de 1,6 km de altitude.
Nos meses secos, o ar sobre o sul da Nigéria, o Benim e o Gana tende mais a descer do que a subir. Esse afundamento empurra os poluentes para baixo e dificulta a sua dispersão. Onde as queimadas são mais intensas, é provável que esse ar estagnado permita que o gás se acumule justamente onde as pessoas vivem.
Na estação chuvosa, o padrão inverte-se. O ar ascendente e a chuva forte removem o gás da atmosfera, razão pela qual o período mais limpo coincide com a monção.
O que as pessoas respiram
O aumento não é pequeno. Um trabalho anterior em Acra observou que o dióxido de nitrogênio subia de cerca de 63 microgramas por metro cúbico em dias comuns para aproximadamente 87 durante o Harmattan. Isso ultrapassa o nível que agências consideram seguro.
Durante as queimadas, o gás dificilmente vem sozinho. Ele aparece junto de fuligem fina, e respirar essa combinação prejudica mais os pulmões do que cada componente isoladamente.
Outro conjunto de estudos associa a exposição prolongada à asma infantil, e uma análise global liga o problema a milhões de novos casos em crianças por ano.
O impacto recai com mais força sobre quem já enfrenta moradias superlotadas, assistência de saúde limitada e fumo de cozinhar dentro de casa. Essas pressões concentram-se nos mesmos poucos meses.
Prever picos de poluição
O estudo não contabiliza atendimentos hospitalares nem mortes; os autores tratam os resultados como sinais de risco de exposição, não como uma medida direta de danos. O que eles demonstraram foi o calendário do fenómeno.
Ano após ano, as queimadas sazonais coincidem com o afundamento do ar, empurrando um gás nocivo para o seu nível máximo.
É essa previsibilidade que torna o achado útil: mesma fonte, mesma época, mesmo ar a prender a poluição. Como o pico segue um calendário que os satélites conseguem antecipar, autoridades podem emitir alertas sazonais e preparar serviços de saúde antes das semanas mais críticas.
Numa região com poucos sensores no solo, observar a poluição a partir da órbita revela o que, de outro modo, permaneceria invisível.
As queimadas nunca estiveram realmente escondidas. O que faltava era alguém para ler o rastro que elas deixam no céu.
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