Pular para o conteúdo

Projeto Jangbogo N: Coreia do Sul acelera rumo ao primeiro submarino de propulsão nuclear

Engenheiro naval com capacete branco segura tablet ao lado de planta de submarino na doca seca com submarino preto.
  • Adicione-nos aos favoritos no Google

Por que fazer isso? Assim, você recebe as últimas atualizações da Zona Militar diretamente no seu feed do Google.

O governo e a Marinha da Coreia do Sul estão dando um novo e contundente passo no desenvolvimento de submarinos com o Projeto Jangbogo N. O foco central do programa é construir o primeiro submarino de propulsão nuclear do país e, com isso, consolidar uma capacidade naval autônoma de longo alcance. A iniciativa, conduzida pelo Ministério da Defesa Nacional, tem apoio direto do presidente Lee Jae-myung. Com horizonte de quatro décadas, o plano busca permitir que a Marinha da República da Coreia (ROKN) incorpore essas unidades estratégicas antes de 2040.

Na prática, trata-se de uma mudança relevante em relação à frota atual de submarinos diesel-elétricos de Seul. Conforme comunicações oficiais, o Projeto Jangbogo N pretende criar, em território nacional, uma plataforma equipada com reator nuclear. Essa solução viabiliza permanências submersas por longos períodos e velocidades mais elevadas, reduzindo a necessidade de emergir frequentemente para recarregar baterias ou reabastecer.

Continuidade histórica da frota sul-coreana

A denominação do programa remete a Jang Bogo, personagem histórico coreano do século IX, conhecido por sua influência marítima e militar no Mar Amarelo. A escolha do nome reforça a continuidade dos projetos de submarinos sul-coreanos ao longo das últimas décadas. Na indústria naval local, a referência “Jang Bogo” é usada de forma recorrente para identificar diferentes gerações de embarcações desenvolvidas no país. Essa linha evolutiva evidencia o esforço nacional para assegurar autossuficiência na defesa do seu espaço marítimo regional.

KSS-I ou Tipo 209

A trajetória moderna do programa de submarinos da Coreia do Sul começou oficialmente com o KSS-I, também chamado, no exterior, de classe Jang Bogo. Trata-se de uma variante do submarino Tipo 209, originalmente desenvolvido pela empresa alemã Howaldtswerke-Deutsche Werft (HDW). O contrato para a incorporação dessas unidades foi firmado em 1987, mas as entregas e a entrada em serviço só começaram 6 anos depois. Ao todo, a Coreia do Sul recebeu 9 submarinos entre 1993 e o 2001.

Os submarinos convencionais KSS-I possuem oito tubos lança-torpedos de 533 mm na seção de proa. As tripulações podem empregar torpedos modernos, minas navais e mísseis do tipo Sub-Harpoon. Em termos técnicos, essas embarcações deslocam entre 1.200 e 1.400 toneladas. A autonomia em superfície chega a 11.000 milhas náuticas, e a vida útil estimada é de 50 dias.

Um ponto essencial - que não pode ser deixado de lado - é que, para alcançar a transferência de tecnologia desejada pelo governo sul-coreano, a partir da segunda unidade os submarinos passaram a ser montados localmente em estaleiros do país, usando kits fornecidos pela Alemanha.

Esse aprendizado acumulado foi ampliado nas décadas seguintes por meio de sucessivos processos de modernização. Em agosto de 2024, a Administração do Programa de Aquisições de Defesa (DAPA) confirmou a reintegração do submarino da classe KSS-I ROKS Jung Woon. A medida ocorreu após a conclusão de um ciclo completo de atualização tecnológica nas instalações da Hanwha Ocean, na cidade de Geoje. Essa unidade, integrante da classe KSS-I, havia iniciado sua modernização em março de 2023.

KSS-II ou Tipo 214

O passo seguinte nessa evolução tecnológico-militar foi buscar submarinos maiores e com desempenho superior ao dos Tipo 209. Nesse cenário, no fim dos anos 1990 e no início dos anos 2000, o Ministério da Defesa assinou um acordo com a Howaldtswerke-Deutsche Werft para introduzir submarinos Tipo 214, incluindo também a transferência de tecnologia para construção.

Assim como na classe anterior, foram encomendados 9 submarinos, porém em 2 lotes. Os três primeiros Tipo 214, do Lote 1, foram montados pela Hyundai Heavy Industries e incorporados entre 2007 e 2009. Em agosto de 2008, a Coreia do Sul assinou um novo contrato com a HDW para mais seis Tipo 214, correspondentes ao Lote 2. Diferentemente dos três iniciais, esses foram montados pela Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering. As seis unidades adicionais foram entregues entre o 2014 e o 2020.

Vale destacar que, no ano passado, a Coreia do Sul avançou no processo de modernização dos submarinos KSS-II. O programa aprovado pela DAPA prevê a instalação de novos sistemas de combate desenvolvidos integralmente por empresas locais. O pacote também inclui sonares mais avançados, sistemas de detecção de minas navais, antenas flutuantes e sensores de varredura lateral.

A atualização da frota KSS-II exigirá um investimento estimado em 468.900 milhões de wones. O projeto seguirá até 2033. Com essa decisão, Seul pretende elevar a capacidade de sobrevivência dos seus submarinos em ambientes de combate modernos. Paralelamente, o governo vem ampliando a participação da indústria nacional no desenvolvimento de tecnologias críticas ligadas ao setor naval e, especificamente, ao segmento de submarinos.

Chegamos ao atual KSS-III

Um marco recente do programa sul-coreano ocorreu em outubro de 2025, quando a Marinha da Coreia do Sul realizou a cerimônia de lançamento ao mar do ROKS Jang Yeong-sil (SS-087). Esse navio é o primeiro submarino KSS-III do Lote II construído inteiramente com tecnologia nacional. O evento oficial aconteceu no estaleiro da Hanwha Ocean e representou um novo avanço dentro do programa Dosan Ahn Changho.

O que muda em relação às classes anteriores?

Como já indicado, o KSS-III se diferencia das classes anteriores (KSS-I/Tipo 209 e KSS-II/Tipo 214) porque não se trata de submarinos adquiridos no exterior para posterior montagem na Coreia do Sul: essas unidades passaram a ser projetadas e fabricadas integralmente no país. Por isso, os estágios anteriores foram decisivos para o amadurecimento tecnológico e industrial sul-coreano, ao fornecerem experiência e conhecimento suficientes para viabilizar a construção de submarinos próprios.

É importante observar que a classe KSS-III possui versões distintas. A versão 1, ou Batch I, tem 83 metros de comprimento e deslocamento de 3.300 toneladas, sendo consideravelmente maior que seus antecessores e a primeira a incorporar sistemas de lançamento vertical (VLS), especificamente com 6 células. Foram construídos 3 submarinos dessa versão, incorporados à Marinha da Coreia do Sul entre o 2021 e o 2024.

Na sequência, o governo sul-coreano continuou aprimorando o KSS-III e hoje está construindo a versão 2, ou Batch II. O ROKS Jang Yeong-sil, o único lançado até agora (com lançamento ao mar em outubro do 2025), apresenta deslocamento aproximado de 3700 toneladas e comprimento de 89 metros. Essa plataforma é o submarino diesel-elétrico mais avançado produzido pela Coreia do Sul até o momento. Entre os pontos de destaque estão as baterias de íons de lítio desenvolvidas localmente. O projeto adiciona 4 células de sistemas de lançamento vertical (VLS) em comparação com o Batch I e conta com alto nível de automação interna.

O futuro estratégico do Projeto Jangbogo N

Em fevereiro de 2026, começaram a aparecer novos indícios sobre o avanço do componente nuclear do programa sul-coreano. Diferentes fontes de inteligência de fontes abertas (OSINT) indicaram que a Marinha da Coreia do Sul pretende dar novos passos em breve. O planejamento preliminar prevê iniciar, em 2028, a construção do primeiro submarino nuclear KSS-III de terceira geração (também chamado de Batch III). Isso representará o começo formal da transição de plataformas convencionais para unidades impulsionadas por reatores.

De acordo com informações divulgadas, a Coreia do Sul já concluiu grande parte do desenvolvimento tecnológico necessário. O Ministério da Defesa Nacional montou uma equipe específica para conduzir a aquisição de materiais e tratar das autorizações internacionais. O desenvolvimento de um submarino de propulsão nuclear exige aderência a normas internacionais rigorosas de segurança. O governo sul-coreano também mantém conversas discretas para garantir o fornecimento do combustível necessário ao reator.

Analistas internacionais avaliam que a entrada em serviço de um submarino de propulsão nuclear tende a alterar o equilíbrio estratégico no Leste Asiático. A possibilidade de operar de forma furtiva por tempo indefinido amplia o poder de dissuasão frente a potências vizinhas. O Projeto Jangbogo N confirma o grau de maturidade alcançado por estaleiros e projetistas sul-coreanos nas últimas quatro décadas. Assim, o país se consolida como um dos poucos atores globais capazes de projetar e construir esse tipo de tecnologia naval avançada.

Imagens meramente ilustrativas.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário