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Rolls-Royce Spectre Phase II e Ferrari Luce: confronto no topo dos elétricos

Carro elétrico Rolls-Royce Spectre EV verde em showroom moderno com piso de mármore.

Poucos dias depois da estreia da Ferrari Luce, a Rolls-Royce apresentou a Spectre Phase II. Difícil tratar como coincidência.

Quando a Rolls-Royce lançou a Spectre em 2023, rompeu com um costume antigo: abandonar os grandes motores a combustão - em especial o V12 biturbo 6,6 ou 6,75 litros de origem BMW usado desde 2009. Para a marca britânica de prestígio, comprada pelo fabricante alemão em 1998, propulsores de grande cilindrada sempre foram uma assinatura histórica; ainda assim, pela primeira vez, a Spectre passou a usar dois motores elétricos. A escolha desagradou parte dos puristas, mas, no fim das contas, combina com a essência do fabricante: silêncio absoluto e torque imediato, sem qualquer vibração - a expressão mais extrema da sua filosofia.

Três anos depois, chega a Spectre Phase II: com desempenho reforçado, mas agora sem exclusividade total nesse nicho ultraseleto. No começo de maio de 2026, a Ferrari também revelou seu primeiro modelo 100% elétrico, a Luce - e a comparação (quase inevitável, e talvez um pouco apressada) surgiu na hora.

Rolls-Royce Spectre Phase II: a extravagância elétrica de Goodwood

Bateria Gen6, parceria com a Rimac e autonomia maior

Na Phase II, a Rolls-Royce adotou as células cilíndricas de íons de lítio Gen6 da BMW, as mesmas do BMW i7 reestilizado apresentado em 22 de abril de 2026 na Auto China, em Pequim. Desenvolvidas em parceria com a Rimac, elas elevam a autonomia de 530 a 628 quilômetros, ou seja, 18% a mais do que a geração anterior, além de reduzir o tempo de recarga em 14%.

Potência recorde: 593 cv e 671 na Black Badge

A potência sobe para 593 cavalos na versão padrão e para 671 na Black Badge, a configuração mais agressiva da linha Rolls, voltada a quem quer uma Spectre com mais “veneno” disponível. A marca nunca havia oferecido um veículo tão potente - e, ironicamente, o recorde chega justamente no seu primeiro carro sem motor térmico.

Personalização Bespoke e acabamento artesanal no nível Rolls-Royce

O restante segue o padrão clássico da Rolls-Royce: um cardápio de opções que faz a personalização das demais marcas premium parecer tão empolgante quanto um formulário de repartição.

A tapeçaria estreia uma composição totalmente em rayon de bambu, bordada com um motivo RR feito com 2,6 milhões de pontos e dez quilômetros de fio, totalizando 25 horas de trabalho artesanal por exemplar. Já os assentos de couro recebem cortes a laser para revelar desenhos ocultos na própria espessura do material, visíveis apenas com luz rasante.

No painel, a peça luminosa chamada Illuminated Fascia reúne 8 108 pontos de luz individuais no lado do passageiro, formando um padrão ondulante inspirado na névoa da manhã sobre as South Downs - as colinas de Sussex que podem ser vistas a partir da fábrica de Goodwood.

As placas do console central remetem a mostradores de instrumentos aeronáuticos de alta precisão, numa referência à aviação que a Rolls-Royce sempre assumiu: foram os motores Merlin que impulsionaram os Spitfire e Hurricane da Royal Air Force durante a Segunda Guerra Mundial.

Os apliques de madeira nas portas e no painel são de raiz de nogueira, um tipo de lâmina retirada dos nós da árvore, com veios que não se repetem. Para fechar o conjunto, o acabamento é selado com pó de vidro - sob luz direta, isso cria um brilho mineral e uma profundidade que nenhum outro verniz consegue imitar.

O preço de entrada desta nova Spectre foi definido em 300 000 libras (cerca de 347 000 €), mas o número pouco diz sobre a prática: a média observada supera 500 000 libras (580 000 €), já que muitos compradores personalizam o carro do início ao fim via Bespoke, o programa sob medida da própria marca.

Rolls-Royce Spectre Phase II vs. Ferrari Luce: dá mesmo para chamar de duelo?

Colocar a Luce da Ferrari na conversa é natural quando se olha para o que a Spectre entrega. As duas são as primeiras elétricas de suas respectivas marcas, ambas custam acima de 300 000 euros e representam o ponto mais alto do que seus fabricantes conseguem oferecer.

A Luce, com preço de 550 000 euros, é apresentada como um sedã de quatro portas - uma GT elétrica também muito luxuosa -, mas preserva o DNA de uma supercar, talvez até de uma hypercar. Com 1 050 cavalos, ela esmaga o 0 a 100 km/h em 2,5 segundos.

Hoje, as únicas rivais realmente comparáveis são a Porsche Taycan Turbo GT (248 000 €) e a Mercedes-AMG GT63 S E Performance (280 000 €): modelos que não disfarçam a vocação esportiva e seguem o mesmo princípio - o elétrico a serviço da performance pura - embora custem quase metade do valor pedido pela Luce.

A ideia de esportividade nunca foi parte do repertório da Rolls-Royce; é quase um conceito “vulgar” demais para os gentlemen que costumam comprá-la. Entre os elétricos puros, a Spectre reina sem um adversário declarado, já que a Bentley Flying Spur híbrida é a única vizinha de segmento realmente crível… mas ela ainda mantém um motor a combustão. Por isso, o paralelo é tão sedutor quanto intelectualmente torto: são carros que podem ir para as mesmas garagens, não concorrentes diretos no sentido estrito.

Autonomia, cronologia e a resposta da Rolls-Royce à Ferrari

Mais interessante do que confrontar a Spectre diretamente com a Luce é observar o timing. A Spectre Phase 1 declarava 529 km de autonomia, e a Ferrari chega com seu “sedã” capaz de rodar 530. A diferença de 1 km deu uma vitória simbólica imediata a Maranello, mal o modelo saiu da fábrica.

A Rolls-Royce respondeu rapidamente: poucos dias após o lançamento da Luce, apresentou a Spectre Phase II com 98 km a mais de autonomia do que a Luce e 99 a mais do que a primeira versão da Spectre. Dá para dizer, de forma apressada, que “a Rolls-Royce venceu esse round por nocaute técnico” - mas isso reduziria a disputa a uma tabela fria de números, sobretudo porque essas duas fabricantes nunca se enxergaram como rivais.

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