A fosfomicina é um dos antibióticos mais usados como primeira escolha para infecções do trato urinário (ITUs). Durante muito tempo, ela era prescrita logo de início, em parte porque a resistência demorava a aparecer.
Só que essa vantagem vem diminuindo. Cepas resistentes de E. coli - a bactéria por trás da maioria das ITUs - ficaram comuns a ponto de médicos acompanharem, em tempo real, a perda gradual de eficácia do fármaco.
Um estudo publicado neste mês descreveu um componente do suco de oxicoco que parece neutralizar diretamente um desses “truques” de resistência, ao menos em bactérias cultivadas em laboratório. A afirmação é mais específica - e bem mais inesperada - do que a reputação popular tradicional atribuída à bebida.
Um remédio antigo sob nova análise
Por décadas, pesquisadores atribuíram qualquer possível benefício do suco de oxicoco contra infecções da bexiga ao seu alto grau de acidez. Em estudos mais recentes, porém, o efeito passou a ser ligado a compostos capazes de impedir que bactérias se fixem às células que revestem o trato urinário.
Essa explicação baseada na antiaderência se sustentou em diferentes trabalhos e virou a interpretação mais aceita. O que ela não esclarece é o que ocorre quando antibióticos entram na disputa contra uma infecção já instalada.
Foi exatamente essa lacuna que o microbiologista Eric Déziel, Ph.D., do Institut National de la Recherche Scientifique (INRS), em Montreal, decidiu investigar com sua equipa. A pergunta era se o suco de oxicoco alteraria o comportamento da E. coli quando um antibiótico estivesse presente na placa.
Suco de oxicoco diante da E. coli
O grupo cultivou 32 cepas uropatogénicas de E. coli, responsáveis pela maior parte das ITUs. Cada uma vinha de amostras clínicas, e não de linhagens “domesticadas” de laboratório.
Parte das bactérias recebeu apenas o antibiótico; outra parte foi exposta ao antibiótico combinado com suco de oxicoco da América do Norte, Vaccinium macrocarpon. Essa espécie está por trás da maioria dos produtos comerciais de oxicoco.
O padrão apareceu na maior parte das amostras. Em 72% das cepas testadas, o suco de oxicoco aumentou a capacidade de eliminação da fosfomicina e, ao mesmo tempo, retardou o surgimento de mutantes resistentes.
Os resultados foram consistentes o bastante para indicar um mecanismo real, e não apenas variação aleatória.
O truque da “porta do açúcar”
A fosfomicina entra nas células de E. coli por dois canais que a bactéria usa normalmente para importar açúcares. Um é chamado GlpT e o outro, UhpT; o primeiro costuma transportar a maior parte do antibiótico.
Essa configuração explica por que a resistência à fosfomicina quase sempre começa com a quebra do canal GlpT. Sem ele, o fármaco perde, em grande medida, o acesso ao interior da célula.
Mas parece haver uma mudança com o suco de oxicoco. Algo na bebida aparenta alterar o equilíbrio: ele suprime o canal GlpT e desloca uma fatia maior da entrada do antibiótico para o UhpT, que continua a puxar o fármaco para dentro. O composto exato por trás disso ainda não foi identificado.
As mutações revelam o mecanismo
A análise genética das poucas bactérias que sobreviveram ao tratamento mostrou o processo em funcionamento. As que resistiram ao antibiótico sem suco de oxicoco apresentavam as mutações clássicas em GlpT.
Já as sobreviventes quando o suco estava presente exibiam mutações em UhpT - um caminho de fuga menos frequente e mais difícil. Como a expressão de GlpT já estava suprimida, o atalho habitual de resistência aparentemente deixou de oferecer tanta proteção.
Trabalhos anteriores já sugeriam que pequenas moléculas capazes de afetar esses dois canais poderiam mudar o desempenho da fosfomicina. A novidade aqui foi a origem: um suco presente em milhões de frigoríficos, e não um composto feito para pesquisa.
Limites do achado
Placas de laboratório não são bexigas. Os próprios autores ressaltaram que beber um copo de suco de oxicoco não garante que esses compostos atinjam bactérias resistentes no trato urinário em quantidades úteis.
Para isso acontecer, as substâncias precisam sobreviver à digestão, ser absorvidas e chegar ao local da infeção. “Não sabemos se os metabólitos vão chegar à infeção”, disse Déziel.
Produtos adoçados acrescentam outra complicação. O que seria necessário é o suco puro, não as bebidas diluídas de oxicoco que dominam as prateleiras. Esses produtos podem não ter compostos ativos em níveis suficientes para produzir o efeito.
As ITUs continuam muito comuns
As infecções do trato urinário não são raras. Mais de 400 milhões de pessoas têm uma por ano em todo o mundo, e mais da metade das mulheres passará por pelo menos um episódio ao longo da vida.
A maioria desses casos está ligada à E. coli, e a fosfomicina ocupa posição de destaque entre os medicamentos prescritos. O antibiótico se manteve por décadas em parte porque a resistência demorava relativamente a surgir - mas esse período de vantagem está a terminar.
Outros estudos já catalogaram as rotas moleculares que a E. coli usa para escapar da fosfomicina, e agora médicos enfrentam pressão para encontrar outras opções de primeira linha. Qualquer estratégia adicional que, de forma discreta, atrase a resistência é bem-vinda.
Suco de oxicoco e ITUs
O ponto mais claro é que o suco de oxicoco, um alimento familiar, consegue alterar em nível genético a forma como bactérias absorvem um antibiótico.
Essa resposta já havia sido suspeitada com extratos concentrados de oxicoco, mas não tinha sido demonstrada até agora com suco comum testado contra um conjunto clínico de cepas de E. coli.
O próximo passo são estudos de seguimento em animais e em pessoas. No futuro, pacientes com ITUs difíceis de tratar podem vir a ter um complemento barato ao tratamento padrão, ao lado do antibiótico que já recebem.
“Com o desafio da resistência a múltiplos fármacos, precisamos agir por muitos caminhos diferentes”, afirmou Déziel. O suco de oxicoco é um desses caminhos. O achado surge num momento em que vitórias fáceis contra bactérias resistentes são raras.
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