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Eleições municipais de março de 2026: IA generativa já influencia o voto e preocupa para a presidencial de 2027

Mulher assistindo entrevista política no laptop com xícara com bandeira do Brasil na mesa.

As eleições municipais de março de 2026 sinalizaram uma mudança relevante na forma como os franceses se informam e decidem o voto. Pela primeira vez, uma parcela expressiva do eleitorado delegou a uma IA conversacional uma parte do processo de decisão na hora de escolher o candidato. Ainda é um comportamento minoritário, mas suas consequências para a presidencial de 2027 já passaram a preocupar seriamente quem acompanha o tema.

Um levantamento da Toluna Harris Interactive, divulgado nesta segunda-feira pelo think tank Terra Nova, aponta um movimento que chama atenção: os franceses começam a entregar parte do voto às inteligências artificiais. A pesquisa foi feita on-line no dia das eleições municipais, com mais de 4.000 eleitores de cidades com pelo menos 3.500 habitantes, e mostra que 16% dos franceses usaram uma ferramenta de IA generativa para orientar a escolha do voto no primeiro turno. Como sintetiza Jean-Daniel Lévy, diretor adjunto da Toluna França e autor do estudo, “Um francês em cada seis consultou uma IA generativa pensando em fazer perguntas sobre o seu comportamento eleitoral, é um fenômeno importante”.

IA generativa nas eleições municipais de 2026: como ela pesou no voto

Os dados da pesquisa descrevem três atitudes bem distintas entre quem recorreu à IA. A fatia mais numerosa (7%) usou o recurso apenas para validar uma decisão que já estava tomada. No entanto, 5% efetivamente trocaram o voto depois da consulta. Entre os indecisos, 4% acionaram a IA para decidir de vez.

Na prática, isso significa que quase um terço dos usuários teve o voto influenciado por uma máquina - justamente o ponto mais sensível revelado pelo estudo.

Quem são os eleitores que recorreram à IA

O perfil de quem utilizou IA é marcado, antes de tudo, por uma predominância masculina: homens somam 20% dos eleitores que recorreram a esse tipo de ferramenta, enquanto entre as mulheres a taxa é de 10%. A diferença por idade é ainda mais acentuada: 35% entre os menores de 25 anos, contra 1% entre os eleitores com 75 anos ou mais.

O que surpreende mais, porém, é o recorte social. As categorias socioeconômicas menos favorecidas (operários e empregados) buscaram mais informação via IA (17%) do que executivos e profissionais intelectuais de nível superior (13%). Segundo o instituto, isso se explicaria por um vínculo mais distante com as fontes tradicionais de informação política: esses eleitores “se sentem menos próximos da informação política”, detalha Jean-Daniel Lévy.

Só o começo

Ainda assim, convém manter a perspectiva. Quando o uso é estritamente informativo - para entender a campanha, os candidatos e os programas - a IA aparece apenas como o 14º canal mais utilizado (11%). Ela fica muito atrás de meios como panfletos (59%), indicações de pessoas próximas (47%), imprensa regional diária (36%) e redes sociais (32%). Ou seja, a IA não substituiu os hábitos de informação já existentes; ela se soma a eles como mais uma camada nesse “bolo em camadas” da comunicação política.

Com isso, é plausível esperar que a IA passe a ter um papel cada vez mais relevante no tabuleiro político. Uma pesquisa Ipsos-BVA publicada em janeiro, antes do pleito, indicava que 48% dos franceses já tinham usado - ou pretendiam usar - uma IA generativa para se informar sobre política. Entre jovens de 18 a 24 anos, o índice chegava a 75%. A distância entre a intenção (48%) e o uso efetivo no momento do voto (16%) segue grande, mas a trajetória de adoção sugere, com pouca margem para dúvida, mudanças nas práticas nas próximas eleições.

Presidencial de 2027: opacidade dos assistentes e riscos de influência

A próxima grande disputa no país será justamente a presidencial, em 2027. Emmanuel Macron havia alertado sobre isso em novembro do ano passado, em conversa com leitores do La Voix du Nord:

Nas próximas municipais e presidencial, cada vez mais compatriotas vão abrir o seu agente de IA e perguntar “para quem eu devo votar?”. Aí, a gente entra em outro mundo, porque eu não sei o que o ChatGPT vai recomendar que se vote.

Diferentemente das redes sociais - cujas lógicas algorítmicas são parcialmente compreensíveis e, portanto, passíveis de influência por partidos -, as respostas de assistentes conversacionais continuam sendo uma caixa-preta. Ninguém (nem candidatos, nem especialistas, nem os próprios eleitores) sabe exatamente como um modelo de IA constrói a resposta à pergunta “em quem votar?”, nem quais vieses podem aparecer nesse processo. A menos que se recorra ao Grok, a IA de Elon Musk, cujas inclinações muito à direita já não precisam de demonstração.

Em um artigo publicado em dezembro na Nature sobre a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2024, pesquisadores do MIT mostraram que uma conversa prolongada com uma IA desenhada para defender um candidato aumentava a adesão dos eleitores a esse candidato. Por outro lado, bastava um modelo apresentando os argumentos do adversário para enfraquecer essa adesão. O progresso não para… infelizmente.

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