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A fábrica da Zeekr em Ningbo: 7,9 milhões de m², 1200 carros/dia e gigacasting

Carro esportivo elétrico Zeekr 2026 prata exibido em sala moderna com paredes de vidro.

A primeira impressão é o tamanho. A planta da Zeekr fica em Hangzhou Bay, na cidade de Ningbo, em uma das áreas industriais mais relevantes do delta do rio Yangtzé. Trata-se de um complexo com 7,9 milhões de m² - algo como 1100 campos de futebol.

Dentro dessa unidade, saem de linha carros da própria Zeekr e também modelos da Polestar, em linha com a lógica industrial do Grupo Geely. A ideia foi montar um ecossistema produtivo capaz de atender posicionamentos comerciais diferentes e mercados distintos usando a mesma base técnica. Com isso, o grupo consegue diluir investimentos, acelerar desenvolvimentos e ganhar escala mais rapidamente.

Uma fábrica do futuro

A instalação está na chamada “Golden South Wing” do delta do rio Yangtzé e começou a operar no terceiro trimestre de 2021, após as obras terem sido iniciadas no fim de 2018.

Mais do que uma fábrica isolada, o local funciona como uma unidade industrial integrada. Ali estão reunidas as etapas centrais de produção de um automóvel atual: estamparia, soldagem, pintura, montagem final, logística, controle de qualidade e testes finais. O prédio principal de produção tem cerca de 150 mil m², inserido em um parque industrial muito maior.

O projeto foi pensado como uma das primeiras “fábricas do futuro” da província de Zhejiang, conceito baseado na integração de 5G, inteligência artificial e coleta intensiva de dados industriais. No centro dessa arquitetura está o que a Zeekr chama de “Digital Brain”, uma camada digital que acompanha a operação, cruza dados de produção e ajuda a coordenar eficiência, qualidade e flexibilidade.

Ali, tudo é monitorado, sincronizado e recalibrado em tempo real. No dia da visita, a planta estava produzindo cerca de 300 carros, embora a capacidade máxima divulgada seja de 1200 automóveis por dia. Do recebimento da matéria-prima na linha até a finalização e a saída do veículo da fábrica, o ciclo leva aproximadamente 15 horas - em um ritmo que pode chegar a menos de um carro por minuto.

Flexibilidade é palavra de ordem

O fluxo começa nas áreas de estamparia e construção da carroceria. A estamparia opera com uma linha automatizada preparada para fazer várias peças a partir de um único molde. Essa foi a primeira fábrica da China a adotar o gigacasting, com a meta de reduzir complexidade, encurtar o ciclo produtivo e garantir maior repetibilidade industrial.

Na soldagem, a automação aparece de forma ainda mais evidente. Hoje, essa etapa conta com 885 robôs de soldagem e menos de 100 funcionários em operação. O nível de automação aqui chega a quase 100%, o que facilita trabalhar plataformas e modelos diferentes com alto grau de flexibilidade.

Em seguida vem a pintura, onde a fábrica utiliza tecnologias voltadas para elevar a qualidade do acabamento e diminuir o impacto ambiental. Já na montagem final, a produção segue uma lógica “C2M”, de “customer to manufacturer”, permitindo milhões de configurações personalizadas por modelo e padrões de processo específicos.

Essa capacidade de adaptação é um dos pilares do projeto. Segundo a Zeekr, de cinco linhas, quatro já operam com níveis de automação na casa de 95%. A planta foi desenhada para alternar configurações, versões e modelos com menos atrito, em um setor no qual os ciclos de produto estão cada vez mais curtos e a personalização ganha peso.

Poucos humanos e muitos robôs

Ainda há pessoas no processo, mas a presença humana é mais discreta do que se esperaria em uma fábrica desse porte. Ao todo, trabalham cerca de 800 funcionários no conjunto da linha de montagem, enquanto grande parte do transporte interno fica por conta de robôs logísticos. No chão de fábrica, os nomes mais recorrentes são KUKA e ABB, as duas marcas que dominam essa operação.

Há por volta de 600 robôs de transporte circulando pela planta, levando peças, subconjuntos e componentes entre as diferentes etapas. Essa logística interna automatizada é decisiva para sustentar o ritmo da linha e reduzir tempos ociosos entre operações.

É nesse ponto que a fábrica da Zeekr se distancia da imagem clássica de uma linha de montagem automotiva. As etapas continuam reconhecíveis, mas a coordenação entre elas depende cada vez mais de dados, sensores, sistemas digitais e veículos autônomos internos.

A primeira fábrica da China com gigacasting

Entre os destaques técnicos da Zeekr Smart Factory está o uso do gigacasting. A Zeekr foi o primeiro fabricante chinês a empregar esse processo em grande escala, utilizando máquinas de fundição de 7200 toneladas.

Na prática, o gigacasting viabiliza a fabricação de grandes peças estruturais de alumínio em uma única operação, substituindo vários componentes que, no método tradicional, precisariam ser estampados, soldados e unidos em diversas etapas. O ganho aparece na simplificação da estrutura, na redução do número de peças, na melhora da repetibilidade industrial e no potencial de diminuir peso e custos.

Esse caminho vem ganhando espaço na indústria, sobretudo entre fabricantes de veículos elétricos, porque acelera a produção e simplifica arquiteturas. Ao mesmo tempo, exige um nível elevado de controle industrial: quando uma peça estrutural passa a concentrar tantas funções, a precisão do processo se torna ainda mais crítica.

Controle de qualidade

A visita também evidenciou como a Zeekr valida a qualidade final antes da entrega. Todos os carros passam por uma pista de testes de 3 km dentro do complexo, onde são verificados ruídos, vibrações, frenagem, direção e funcionamento geral.

Além disso, cada veículo produzido enfrenta um teste de estanqueidade. Durante seis minutos, são despejadas cerca de duas toneladas de água sobre o carro, simulando chuva intensa. A intenção é assegurar que não há infiltrações antes de o automóvel seguir para a etapa final de inspeção.

O processo de qualidade inclui ainda verificações comerciais, regulatórias e de pré-entrega. A coleta de dados acompanha diferentes fases da produção e permite rastrear cada unidade ao longo do processo industrial, das primeiras operações ao controle final.

Não produz apenas Zeekr

Um ponto relevante é que a unidade não se limita à produção de veículos Zeekr. Durante a visita, foi possível confirmar que modelos da Polestar também são montados nas mesmas instalações, lado a lado com os carros da Zeekr - incluindo o Polestar 4.

Isso ajuda a entender com mais clareza a lógica industrial do Grupo Geely: não se trata apenas de multiplicar marcas, mas de construir uma base produtiva comum, capaz de atender diferentes posicionamentos comerciais e mercados a partir da mesma infraestrutura técnica. É uma estratégia que dilui investimentos, acelera desenvolvimento e amplia escala.

A marca de Kimi Räikkönen

A Zeekr quer ser percebida como uma marca elétrica premium, tecnológica e rápida para desenvolver produtos, sem ficar presa apenas a números de aceleração e autonomia - e com capacidade de refinar seus carros além das fichas técnicas.

Por isso, tenta conectar essa competência industrial a uma imagem de desempenho. Um dos nomes usados para reforçar essa ligação é Kimi Räikkönen, ex-campeão mundial de Fórmula 1, que vem atuando como consultor de performance da marca.

O que diz esta fábrica sobre a indústria chinesa?

O que foi visto em Ningbo ajuda a explicar por que tantas marcas chinesas conseguem lançar modelos novos, atualizar tecnologias e responder ao mercado em uma velocidade difícil de igualar na Europa. Para as montadoras europeias, competir com carros chineses já não significa apenas enfrentar preços mais baixos, mas disputar com uma nova geração industrial.

Enquanto a Europa debate tarifas, limitações para contratar fornecedores e protege montadoras e fornecedores europeus em uma bolha regulatória, a China segue acelerando para abrir vantagem. O mais interessante? Ela faz isso com o apoio de montadoras, fornecedores e cérebros europeus, americanos e japoneses…

Zeekr entra em Portugal este ano

A Zeekr se prepara para entrar oficialmente em Portugal. A marca chinesa, que pertence ao Grupo Geely, vai estrear no mercado nacional com três modelos já em maio de 2026: o Zeekr 001, o Zeekr X e o Zeekr 7X.

A ofensiva será completada depois do verão com a chegada do Zeekr 7GT, modelo que terá apresentação europeia na terceira semana de junho. Ainda não há uma data final para o início das vendas em Portugal, nem preços oficiais para a linha nacional.

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