O preço do Microlino 2.0 faz desta solução de mobilidade urbana um capricho sobre rodas.
Nas últimas décadas, a Europa assistiu ao surgimento de vários quadriciclos - e também ao desaparecimento prematuro de muitos projetos. Esse cenário só começou a mudar de forma mais consistente quando a Renault lançou o Twizy, em 2012, e quando a Stellantis, mais recentemente, colocou nas ruas o Citroën Ami e o Opel Rocks-e. Agora, quem entra nessa disputa é o Microlino.
Após emplacar sua patinete elétrica (Kickscooter), apresentada em 2013, a Micro Mobility Solutions (MMS) iniciou há pouco tempo a produção em série deste quadriciclo de proposta bem singular.
O desenho deste novo “carro-bolha”, claramente inspirado no saudoso BMW Isetta, faz com que seja difícil não imaginar o modelo encontrando um espaço nas cidades europeias cada vez mais lotadas e engarrafadas.
A origem do projeto se apoia em um dado bem objetivo, obtido em um estudo sobre hábitos de consumidores europeus nos deslocamentos diários feitos com veículo próprio: 1,2 pessoas e 35 km. Essa é a média de uso de cada automóvel nas cidades europeias atuais.
O primeiro protótipo do Microlino foi mostrado no Salão de Genebra, em 2015. Ainda assim, entraves legais, a exigência de reformular totalmente a estrutura (de tubular para carroceria autoportante) e, por fim, a pandemia, fizeram com que a fabricação só começasse no início deste ano.
No fim de 2022, executivos da MMS diziam já ter mais de 35 mil encomendas do veículo, que agora é montado em Turim, em parceria com a Cecomp. As primeiras entregas aos clientes estão previstas para o segundo semestre deste ano.
Isetta encontra a Smeg encontra o ciborgue
De cara, o exterior com jeito de eletrodoméstico antigo - há quem enxergue no Microlino uma Smeg ultraluxuosa com rodas - chama atenção imediatamente. E as semelhanças visuais, conceituais (e deliberadas) com o BMW Isetta dos anos 1950 saltam aos olhos, mesmo que, do ponto de vista técnico, sejam veículos bem diferentes.
Na dianteira e na traseira, as barras horizontais de LED viram assinatura visual e reforçam a ponte entre passado e futuro; daí a expressão Isetta encontra a Smeg encontra o ciborgue, como se o carro fosse a mistura desses três universos.
O Microlino é oferecido em três versões, cada uma associada a uma bateria diferente - 6 kWh, 10,5 kWh e 14 kWh -, mas todas usam o mesmo motor elétrico traseiro. O conjunto entrega pico de 13 kW (17 cv) e 89 Nm, o bastante para sair de 0 a 50 km/h em cinco segundos, assim que o semáforo abre.
Existe ainda um modo Sport, que funciona como um boost para elevar o desempenho até 26 cv (e que desativa sozinho após cinco minutos, podendo ser acionado novamente).
A marca promete um consumo médio ligeiramente abaixo de 6 kWh/100 km e afirma alcançar autonomias de 95 km (6 kWh), 175 km (10,5 kWh) e 230 km (14 kWh).
O microcarro pesa entre 496 kg e 530 kg, conforme a bateria, mas - ao contrário de outros quadriciclos - não se apoia em uma estrutura tubular plástica.
No Microlino, a base é uma monocoque mais segura, com painéis que misturam aço e alumínio. E esse pacote é um dos fatores que empurram o preço para bem acima do praticado por um Citroën Ami - já chegamos lá…
Pela porta da frente
Assim como no BMW Isetta original, entrar e sair se resolve pela grande porta dianteira (com dobradiças à esquerda), que sobe em um movimento meio diagonal. Diferentemente do alemão, porém, o volante não se desloca para liberar passagem na hora de acomodar ou retirar os dois ocupantes.
Mesmo ciente de que o acesso é frontal, é difícil não se perguntar como isso funciona na prática.
Não existe maçaneta externa: para destravar, é preciso usar o botão na chave. Depois, entra em cena um segundo botão, localizado sob o retrovisor do lado esquerdo, e a porta se abre quase “por mágica”.
Para fechar, basta puxar a alça flexível interna até encostar; o “clique” final, no entanto, é concluído de modo elétrico e suave. Nada de bater com força em um carro - perdão, em um quadriciclo - tão “fofinho”.
Interior espartano
Já no habitáculo, fica claro que o acabamento aposta em plásticos duros e simples, e que não há apoio de braço central: no lugar, existe um espaço aberto compartilhado com o passageiro.
À esquerda, foi instalado um freio de estacionamento manual com alavanca que parece saída diretamente dos anos 1960/70 - e que deve ser usado com frequência, já que a transmissão não tem posição “P”.
Para motoristas com mais de 1,80 m de altura, surge a sensação de que o retrovisor externo não oferece amplitude de ajuste suficiente. Também não há espelho retrovisor interno. Na caixa de roda esquerda fica o seletor giratório do câmbio automático.
Atrás do volante, há um painel de instrumentos digital (que até parece grande para um interior tão compacto), também com aparência rudimentar. Ele exibe nível de carga da bateria, nível de energia, velocidade, posição da transmissão e as luzes de advertência obrigatórias.
À direita, uma pequena faixa de comandos sensíveis ao toque controla a ventilação, o desembaçador do vidro traseiro e a abertura da tampa do porta-malas. Não existe ar-condicionado; em vez disso, há janelas laterais corrediças (manuais), teto solar manual (em lona) e, para navegação, um suporte para celular.
Habitat? A selva urbana
Por ser um quadriciclo (homologação L7e), ele não pode sequer entrar em autoestradas, embora alcance 90 km/h de velocidade máxima. Ainda assim, no ambiente urbano caótico, a promessa é de protagonismo: o diâmetro de giro de apenas 7,4 m e a tração elétrica são dois de seus principais trunfos.
“Os automóveis convencionais são grandes e pesados demais para a utilização no dia a dia, mas o Microlino, pelo contrário, é pequeno, leve e eficiente o que lhe permite não só reduzir o gasto de energia como também outro recurso muito importante nas cidades: espaço”.
Ann-Christin Koch, gestora da marca Micro
O Microlino sai com agilidade, mas sem ir além do necessário - exatamente como se espera dele. O volante de três raios não tem airbag; não há direção assistida, nem controle de estabilidade. E o máximo que dá para elogiar na suspensão é que ela é “honesta”, porque transmite ao motorista tudo o que as rodas encontram.
A suspensão é independente nas quatro rodas - pneus 145/70 em rodas de 13″ -, porém bem firme. Os impactos aparecem o tempo todo e a falta de conforto não é recompensada por uma condução esportiva. Já os freios, com discos na dianteira e na traseira, entregam potência suficiente.
Para ouvir música a bordo, será preciso recorrer à caixa de som portátil Bluetooth que vem de série nesta versão Pioneer. Mesmo sem usá-la, porém, sons não faltam dentro do Microlino.
Primeiro, o ruído de rodagem e o vento, já que não parece ter havido grande investimento em materiais de isolamento acústico. Depois, a transmissão de uma marcha, o motor elétrico e o motor do limpador de para-brisa (audível demais) completam a “trilha sonora” a bordo.
Preço desajustado
O sorriso imediato de quem vê o Microlino pela primeira vez - geralmente encantado - tende a desaparecer no mesmo instante em que o preço vem à tona.
Afinal, para um veículo de 2,52 m (por 1,47 m de largura), com cara de brinquedo, cobrar 22 690 euros é exagerado (versão de 10,5 kWh).
Mesmo a opção mais barata, com bateria de 6 kWh, que deve chegar mais tarde, custa “apenas” 17 690 euros. O choque continua: um Citroën Ami sai por pouco mais da metade, ainda que não ofereça a mesma performance ou autonomia do Microlino 2.0.
De série, ele traz faróis de LED, painel digital, bancos com revestimento em couro sintético e rodas de aço de 13″. Além de acomodar dois adultos com espaço suficiente, esta mutação de patinete elétrica ainda oferece 230 litros para bagagem.
Em termos de balanço, dá para dizer que o Microlino é a solução certa para mobilidade urbana? Difícil. O design conquista com seu perfume retrô e o interior acomoda duas pessoas com folga. Em contrapartida, as limitações do habitáculo, a suspensão desconfortável, o alto nível de ruído a bordo e, sobretudo, o preço fazem dele uma escolha pouco racional.
Vai chegar a Portugal?
As encomendas do Microlino já começaram em alguns mercados europeus - como Suíça, Alemanha, Itália, França, Espanha e Grécia -, em parceria com grandes distribuidores locais.
Por enquanto, ele não é vendido em Portugal, e a marca não conseguiu confirmar quando, ou se, o Microlino será comercializado no país.
Ainda assim, sabe-se que a MMS prepara mais variações do Microlino, como a versão Spiaggina - no espírito do Citroën Méhari ou do Fiat 500 Jolly, populares nos anos 1960-70 -, pensada para resorts em áreas litorâneas da Côte d’Azur, Costa Amalfitana etc.
Veredito
Nota: Este artigo foi escrito em colaboração com Jens Meiners.
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