Com a Hyundai já tendo apresentado a sua família de elétricos Ioniq, chegou a vez da Kia reforçar a investida coreana na eletrificação com a estreia do Kia EV6, posicionado como concorrente direto do Volkswagen ID.4.
Na última década, a Kia avançou de forma impressionante na Europa - tanto em volume de vendas quanto em participação de mercado -, mas sabe bem que ainda não dispõe do mesmo peso da Volkswagen.
E, embora a linha ID dos alemães esteja em clara expansão (o ID.3 já circula por aqui e o ID.4 está prestes a chegar), fica evidente que os coreanos estão a somar forças para conquistar destaque nesta nova fase de eletrificação do automóvel.
“Irmãos”, mas diferentes
Sobre essa relação, Luc Donckerwolke, diretor criativo (CCO) da Hyundai - com uma passagem relevante pelo Grupo Volkswagen e uma trajetória curiosa na marca, já que saiu em abril de 2020 e voltou no fim do mesmo ano - explica que Ioniq 5 e EV6 foram desenvolvidos com abordagens opostas: o Hyundai teria sido concebido “de dentro para fora”, enquanto o EV6 nasceu “de fora para dentro”.
Já Karim Habib, vice-presidente de design e diretor do centro global de estilo da Kia (e ex-chefe de design na BMW e na Infiniti), destaca que “esta é uma nova linguagem de design criada para a era elétrica e necessariamente diferente dos modelos mais convencionais”.
Dos onze elétricos que a Kia pretende colocar nas ruas até 2026, sete serão construídos sobre esta nova plataforma elétrica; os outros quatro serão versões elétricas derivadas de modelos já existentes.
A meta é que 40% dos Kia emplacados em 2030 sejam elétricos - o que corresponde a mais de 1,6 milhões de unidades vendidas globalmente naquele ano.
Elétricos muito parecidos?
Para quem observa de fora, os carros concebidos desde o início como 100% elétricos parecem trazer um sopro de novidade ao design automotivo, abrindo possibilidades e inaugurando novas linguagens estéticas.
Ainda assim, em muitos casos, seria difícil reconhecer a que marca pertence cada modelo se os logotipos fossem removidos, justamente pela falta de referências visuais já consagradas.
No EV6 - o primeiro de vários veículos feitos nesta plataforma e que sempre combinarão as letras EV de “Veículo Elétrico” com um número de um único dígito para indicar o posicionamento do carro - a Kia aposta no que descreve como uma “reinterpretação do nariz de tigre na era digital”.
Aqui, a grade dianteira praticamente some, enquadrada por faróis estreitos de LED bem marcantes e por uma tomada de ar inferior que reforça a impressão de largura. De lado, aparece uma silhueta de crossover com muitas ondulações, evidenciando os 4,68 m de comprimento, e culminando numa traseira de personalidade fortíssima: a grande faixa de LED atravessa o EV6 de ponta a ponta e chega até os arcos de cada roda.
A Kia já conta com dois elétricos (o e-Soul e o e-Niro), porém o EV6 é o primeiro a usar a nova plataforma modular global (E-GMP), com tecnologia mais avançada e com melhor aproveitamento funcional e de espaço - duas áreas em que a propulsão 100% elétrica oferece vantagens claras.
Com 2,90 m de entre-eixos e as baterias instaladas no assoalho, o espaço para as pernas na segunda fileira fica enorme e, além disso, sem qualquer túnel ou obstrução no piso, favorecendo o conforto e a liberdade de movimentos.
O porta-malas também é amplo: são 520 litros, que passam a 1300 litros com o encosto dos bancos traseiros rebatido. Soma-se a isso um compartimento extra de 52 litros sob o capô dianteiro - ou apenas 20 litros na versão 4×4 (por haver um segundo motor elétrico na frente) -, ainda assim prático para guardar os cabos de recarga.
Interior amplo, digital e moderno
A cabine de visual atual fica ainda mais “leve” graças ao painel e à console central com desenho minimalista e aos bancos finos, revestidos com plásticos reciclados (nada menos que 111 garrafas plásticas por EV6).
No painel, o destaque vai para o conjunto com dois monitores curvos de 12”: o da esquerda dedicado ao quadro de instrumentos e o da direita voltado ao sistema de infoentretenimento.
Ainda são poucos os carros com head-up display com realidade aumentada - caso do Mercedes-Benz Classe S e dos Volkswagen ID.3 e ID.4 -, mas o Kia também oferecerá (nas versões mais completas) essa projeção animada de informações essenciais à condução, incluindo dados dos assistentes de direção e orientações de navegação passo a passo.
Para tornar a experiência a bordo mais envolvente, haverá ainda um sistema de som premium (Meridian) com 14 alto-falantes, algo inédito num Kia.
2 ou 4 rodas motrizes e até 510 km de autonomia
Este novo elétrico da Kia, que será produzido na Coreia do Sul, contará com duas opções de bateria: 58 kWh e 77,4 kWh. Em ambos os casos, é possível escolher tração traseira (um motor elétrico no eixo posterior) ou tração 4×4 (com um segundo motor no eixo dianteiro).
Na base da linha, aparecem as versões 2WD (tração traseira) com 170 cv ou 229 cv (com a bateria standard ou a maior, respectivamente). Já os EV6 AWD (tração integral) entregam picos de 235 cv ou 325 cv (e 605 Nm neste último caso).
Mesmo sem todos os dados de desempenho e autonomia divulgados nesta fase, o que já se sabe anima: 0 a 100 km/h em 6,2s na versão menos potente e um segundo a menos (5,2s) no AWD, além de até 510 km com uma carga completa (nas configurações com a bateria maior e somente tração traseira).
GT ou será “super” GT?
A versão GT será a única oferecida exclusivamente com a bateria maior. Com 584 cv e 740 Nm vindos dos dois motores elétricos, ela consegue “ser o Kia mais rápido de sempre e entrar em pleno território de superdesportivos como os 3,5s gastos no disparo de 0 a 100 km/h e os 260 km/h de velocidade de ponta bem evidenciam”, como comenta Albert Biermann, o engenheiro que se destacou na divisão M da BMW e que, desde 2015, vem elevando o nível dinâmico dos modelos coreanos.
Com esses números, o Kia EV6 GT acelera com mais força e atinge maior velocidade máxima do que o Porsche Taycan 4S, que faz 0-100 em 4,0s e chega aos 250 km/h(!).
Vale lembrar que a suspensão ganhou um tipo de amortecedor especial (cujos detalhes ainda não foram revelados) para ajudar a compensar o alto peso do EV6, muito ampliado pelo conjunto de baterias (o EV6 pesa entre 1,8 e 2,0 toneladas).
Carregamento revolucionário
O EV6 também deixa clara a sua sofisticação tecnológica ao permitir recarga da bateria (com arrefecimento líquido) tanto em 800 V quanto em 400 V, sem distinção e sem exigir adaptadores.
Isso significa que, nas melhores condições e usando a potência máxima aceita (239 kW em DC), o EV6 pode levar a bateria a 80% em apenas 18 minutos ou recuperar energia para 100 km de condução em menos de cinco minutos (considerando a versão com duas rodas motrizes e bateria de 77,4 kWh).
O carregador de bordo trifásico trabalha com potência máxima em AC de 11 kW. E o sistema se destaca pela flexibilidade graças à “Unidade de Controle de Carregamento Integrado”, que habilita recarga bidirecional.
Na prática, o carro consegue alimentar outros equipamentos - como um ar-condicionado ou uma televisão - ao mesmo tempo por 24 horas, ou até recarregar outro veículo elétrico (para isso, há uma tomada “doméstica” do tipo “Shuko” na segunda fileira).
Como em qualquer elétrico, há soluções voltadas a preservar autonomia, como a bomba de calor: ela ajuda a garantir que, a -7 ºC, o EV6 mantenha 80% da autonomia que teria a 25 ºC, uma temperatura externa muito menos “agressiva” ao funcionamento correto da bateria.
Também já se sabe que o sistema de regeneração de energia é controlado por aletas atrás do volante, permitindo ao motorista selecionar seis níveis de recuperação (nulo, 1 a 3, “i-Pedal” ou “Auto”).
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