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Impressão 3D por ultrassom dentro do corpo pode levar fármacos e reparar tecidos

Profissional de saúde em azul usando óculos de proteção analisa modelo anatômico com dispositivo eletrônico.

Pesquisadores nos Estados Unidos desenvolveram uma forma de fazer impressão 3D de materiais dentro do corpo com ultrassom. Ensaios em camundongos e coelhos indicam que a técnica pode levar medicamentos contra cancro diretamente a órgãos e também ajudar a reparar tecidos lesionados.

Batizada de impressão sonora in vivo em tecido profundo (DISP, na sigla em inglês), a abordagem começa com a injeção de uma bio-tinta específica. A composição pode mudar conforme a função pretendida no organismo, mas há componentes indispensáveis: cadeias de polímeros e agentes de ligação cruzada, que se unem para montar uma estrutura de hidrogel.

Como funciona a técnica DISP de impressão 3D por ultrassom

Para impedir que o hidrogel se forme imediatamente após a injeção, os agentes de ligação cruzada ficam “trancados” dentro de partículas à base de lípidos chamadas lipossomas. Essas partículas têm uma camada externa projetada para começar a vazar quando aquecida a 41,7 °C (107,1 °F) - apenas alguns graus acima da temperatura corporal.

A equipa, liderada por cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), aplicou um feixe de ultrassom focalizado para aquecer os lipossomas e abrir poros na sua membrana. Com isso, os agentes de ligação cruzada são liberados e o hidrogel se forma ali mesmo, no interior do corpo.

Embora trabalhos anteriores tenham usado luz infravermelha como gatilho para imprimir hidrogéis internamente, desta vez o ultrassom foi escolhido por conseguir ativar bio-tintas injetadas mais fundo, chegando a músculos e órgãos.

"A penetração do infravermelho é muito limitada. Ele só chega logo abaixo da pele", afirma Wei Gao, engenheiro biomédico do Caltech. "A nossa nova técnica alcança o tecido profundo e consegue imprimir uma variedade de materiais para uma ampla gama de aplicações, tudo isso mantendo excelente biocompatibilidade."

Com o controlo preciso do feixe de ultrassom, a equipa conseguiu imprimir formas complexas em 3D, como estrelas e gotas.

Resultados em camundongos e coelhos com o hidrogel

Apesar de soar como uma novidade curiosa de modificação corporal, o DISP vai bem além disso: testes em animais com diferentes versões do hidrogel sugerem que ele pode substituir ou reparar tecido danificado, transportar fármacos, ou até acompanhar sinais elétricos em exames como a eletrocardiografia.

Para confirmar visualmente quando o processo estava a ocorrer como esperado, os investigadores recorreram a pequenas vesículas de gás como agente de contraste para imagem.

Essas vesículas alteram o contraste quando são expostas às reações químicas associadas à ligação cruzada dos polímeros. O ultrassom capta esses sinais e, assim, confirma que a reação de formação do hidrogel realmente aconteceu.

Em coelhos, os cientistas imprimiram porções de tecido artificial a profundidades de até 4 centímetros abaixo da pele. Isso pode contribuir para acelerar a cicatrização de feridas e lesões - sobretudo se células forem incorporadas à bio-tinta antes da aplicação.

Em testes com culturas celulares 3D de cancro da bexiga, a equipa aplicou uma versão da bio-tinta carregada com o quimioterápico doxorrubicina. Ao solidificá-la em hidrogel pelo método DISP, o medicamento foi liberado de forma gradual ao longo de alguns dias. O resultado foi uma morte significativamente maior de células cancerígenas do que a obtida com a injeção convencional do fármaco.

A inclusão de outros ingredientes na bio-tinta pode ampliar ainda mais as possibilidades do DISP. Os investigadores também produziram bio-tintas condutoras com nanotubos de carbono e nanofios de prata, que poderiam servir em sensores implantáveis para temperatura ou para captar sinais elétricos do coração ou dos músculos.

De forma relevante, a equipa relata que não foi detetada toxicidade do hidrogel e que o líquido remanescente da bio-tinta é eliminado naturalmente pelo organismo em até sete dias.

Próximos passos rumo a aplicações em humanos

Naturalmente, ainda existe um grande salto entre resultados em animais e a avaliação em pessoas, mas a perspetiva de imprimir dispositivos biomédicos em 3D diretamente dentro do corpo chama a atenção.

"O nosso próximo estágio é tentar imprimir num modelo animal maior e, esperamos, num futuro próximo, conseguir avaliar isto em humanos", diz Gao. "No futuro, com a ajuda da IA, gostaríamos de conseguir acionar de forma autónoma uma impressão de alta precisão dentro de um órgão em movimento, como um coração a bater."

O estudo foi publicado na revista Science.

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