Esta avaliação foi publicada pela primeira vez na Edição 118 da revista Top Gear (2003).
Um fantasma na fábrica da Citroën
Há um fantasma a rondar a fábrica da Citroën. Só que não é daqueles de desenho animado, com lençol na cabeça, a berrar: “Eu teria conseguido escapar se não fossem esses malditos projetistas de chassi!” - é o fantasma do onipresente 2CV. Mesmo tendo sido oficialmente “sepultado” em 1990, a marca não consegue apagar o seu espírito. E a tarefa fica ainda mais difícil porque jornalistas do mundo todo insistem em gritar “É o novo 2CV?” sempre que a francesa lança um compacto.
Fizemos isso com o Berlingo, fizemos com o C3 e, claro, faríamos com o Pluriel. Só que, desta vez, a história muda: há mesmo um pedaço do 2CV dentro do carro novo - e ele está a assombrar o teto.
Texto: Paul Walton
Imagens: Nathan Morgan
O teto do Citroën C3 Pluriel: três carros em um
Era praticamente inevitável que a Citroën criasse uma versão aberta do C3, já que conversíveis pequenos estavam na moda - basta olhar para Peugeot 206CC, Ford StreetKa ou VW Beetle como “(pro)va”. Mas, do seu jeito deliciosamente francês e excêntrico, a Citroën decidiu interpretar o conceito à sua maneira e desenhou algo que vai além de um conversível comum - daí o nome.
Para começar, dá para usar o Pluriel como um hatch de três portas, com a porta traseira dividida, porta-malas do tamanho do C3 “normal” e um teto que você poderia até fingir que nem sai. Mas, como dizem sobre a Bélgica, “qual é a graça?” Nesse caso, seria melhor ficar logo com o C3 padrão - porque o teto é o motivo de existir do Pluriel e foi ali que o fantasma do 2CV soprou no ouvido dos designers: “lembrem de miiiiim!”
Gire o comando e a capota de lona desliza devagar para trás, acompanhando os arcos laterais, até parar junto ao vidro traseiro - exatamente como no 2CV durante 40 anos. Só que não acaba aí. Solte duas travas na parte de trás e todo o conjunto do vidro traseiro com o cassete do teto desce e se aloja no fundo do porta-malas. Abaixe os vidros dianteiros e traseiros (sem coluna central) e pronto: um cabriolet.
E ainda não terminou. Para dirigir totalmente ao ar livre, destrave os encaixes na frente e atrás e os dois arcos do teto saem com cuidado, revelando um conversível de dois lugares com visual clássico, no sentido tradicional da palavra. Parece simples - mas não é. As travas são difíceis de encontrar e ainda piores de operar, e cada arco pesa consideráveis 12 kg. Além disso, depois de removidos não há lugar para guardá-los dentro do carro, então é bom ter certeza de que não vai chover.
Como se não bastasse, as capas plásticas que escondem o mecanismo pouco atraente do teto também dão trabalho para encaixar e passam uma sensação frágil - daquele tipo de frágil que termina com você a segurar um monte de plástico quebrado.
Base de C3, cabine conhecida e motores familiares
Fora a complicação da cobertura, o restante do carro transmite solidez, porque no fundo ele é um C3 (ainda que sobre uma plataforma reforçada). Por dentro, o ambiente é o do C3 de sempre. Por fora, apesar de o desenho ser exclusivo do Pluriel - com dianteira mais arredondada e faróis diferentes, por exemplo - ele mantém o mesmo “ar” e proporções reconhecíveis.
Os motores também não trazem surpresas: versões a gasolina 1.4 e 1.6. A 1.6 pode vir com o excelente câmbio SensoDrive da Citroën, com trocas por aletas.
Na rua: poucos rangidos hoje, mais dúvidas amanhã
Em movimento, a primeira impressão é positiva: apesar de o teto ser composto por várias peças, o carro praticamente não faz barulhos de encaixe. A questão é como isso vai estar depois de mais 80.000 km (50.000 milhas) no hodômetro - aí a conversa pode ser outra.
O restante da experiência ao volante é a mesma do C3: direção leve, chassi ágil e motores espertos. Só que, ao contrário do C3 padrão, ele sofre com certa vibração da carroceria na região do painel (o famoso “scuttle shake”), que em pisos irregulares pode ser realmente desagradável - algo que donos de 2CV conhecem muito bem.
É também aqui que as semelhanças entre o antigo e o novo acabam. O Deux Chevaux tinha uma função honesta: levar camponeses franceses ao mercado com a sua produção. Já o Pluriel parece confiante demais para o próprio bem, com o teto cheio de truques e uma imagem moderninha.
O 2CV era um transporte económico, então dava para perdoar os seus ruídos. Mas, a £13,595, o Pluriel 1.6 é caro para um carro que passa a sensação de que pode começar a desfazer-se, sobretudo quando você lembra que o StreetKa 1.6 custa mil libras a menos.
No fim, a lógica é simples: se você quer um Citroën compacto, compre o C3 convencional. Mas, se a ideia é um conversível da Citroën, compre um 2CV (lençol branco com buracos para os olhos não incluído).
Veredito: Ótimo se você mora em Cannes, mas seria arriscado tirar a capota no Reino Unido.
1.4-litre 4cyl
75bhp, FWD
0-62mph in 12.6secs, max speed 117mph
£11,995
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